Queer, esse é o Anarquismo, Anarquismo, esse é o Queer

Texto adaptado de DARING, C. B. et al. Introduction: Queer Meet Anarchism, Anarchism Meet Queer. In: ______ (Orgs.). Queering Anarchism: Addressing and Undressing Power and Desire. Oakland, Edinburgh, Baltimore: AK Press, 2012. p. 5–19. Tradução minha.

Anarquismo

Muitos volumes foram escritos ao longo da história explicando o anarquismo, e o movimento já viu muitos períodos históricos de recuo e ressurgimento. Nós estamos vivendo num ressurgimento do interesse em ideias anarquistas no momento. É um tropo comum o de que depois da Batalha de Seattle em 1999 — quando uma coalizão livre de ambientalistas, sindicalistas, anarquistas, feministas e muites[1] outres fecharam a conferência de World Trade Organization — o anarquismo tem visto um pouco de um renascimento, muitas vezes conectado com o movimento de antiglobalização/globalização alternativa. De forma similar, o movimento de Occupy Wall Street foi iniciado por anarquistas, entre outres, e teve um forte envolvimento anarquista.[2] E a imprensa mainstream, em ambos os casos, muitas vezes demonizou anarquistas e espalhou desinformações sobre nós.

Isso certamente não é nada novo. Alexander Berkman, já em 1929 em sua introdução ao anarquismo, exclamou que “O anarquismo tem muitos inimigos; eles não vão lhe dizer a verdade sobre ele… os jornais e publicações — a imprensa capitalista — são… contra ele.”[3] De tal forma, ele começou o seu livro com uma lista do que o anarquismo não é:

O anarquismo não é bombas, desordem ou caos.

Não é roubo ou homicídio.

Não é uma guerra de cada um por si.

Não é um retorno à barbárie ou ao estado selvagem do homem.

O anarquismo é o total oposto de tudo isso.

O anarquismo significa que você deve ser livre; que ninguém deveria lhe escravizar, mandar, roubar ou se impor a você.[4]

Há uma longa história do anarquismo sendo distorcido e muites autores anarquistas passaram consideráveis anos tentando esclarecer esses equívocos.

“O Ímpeto de Destruir”

Entretanto, as tentativas de ilustrar o anarquismo em termos puramente pacíficos omitem o seu impulso destrutivo. Com isso, é claro, nós não queremos dizer que anarquistas se deleitam com a destruição deliberada como a mídia mainstream retrata com muita frequência em suas caricaturas de anarquistas. Mas anarquistas possuem sim uma crítica da sociedade existente e tentar esconder ou ignorar isso impõe limites desnecessários ao anarquismo. Nós poderíamos discutir o anarquismo em termos do que ele procura destruir e negar.

A análise anarquista de nossa presente sociedade, por exemplo, sempre sustentou que as relações capitalistas de propriedade são baseadas num tipo de roubo legalizado. Ou seja, nós permitimos (e nossas leis defendem) um sistema no qual coisas como moradia, comida, água — as coisas que todo mundo precisa de acesso para que possam viver vidas dignas de suas próprias escolhas — são possuídas de forma privada e vendidas pelo lucro. De forma semelhante, nós permitimos que os meios de produção dessas coisas, e todo o resto também, sejam possuídos de forma privada. E quando a maioria de nós vai ao serviço, nós fazemos com que os proprietários dessas coisas sejam ainda mais ricos através de nosso trabalho. Anarquistas propõem uma negação desse roubo legalizado — o sistema que nós chamamos de capitalismo.

Nós também vivemos em sociedades em que somos alienades dos meios de tomar decisões. Enquanto nós somos tipicamente alugades por patrões em nossos serviços, nós somos governades por chefes políticos noutros lugares. Se nós formos contra as ordens desses chefes políticos, nós podemos ser espancades, sequestrades, encarcerades, ou até mesmo assassinades pela polícia. E as decisões que afetam nossas vidas são tomadas por políticos que aparentemente nos “representam”. Anarquistas sustentam que nós deveríamos negar a representação política — a instituição que nós chamamos de Estado.

O anarquismo também sustenta que alterações sejam feitas a nós mesmes, e anarquistas no passado sugeriram que o processo de negação de nossas instituições também envolve um processo de mudança de nossas vidas cotidianas e nossos entendimentos do mundo. O anarquista italiano Errico Malatesta, por exemplo, escreveu que “(e)ntre o homem [sic] e o seu meio ambiente social há uma ação recíproca. Os homens fazem da sociedade o que ela é e a sociedade faz dos homens o que eles são, e o resultado é, portanto, um círculo vicioso. Para transformar a sociedade os homens precisam mudar, e para transformar os homens a sociedade precisa mudar.”[5] Isso significa lutar contra, e em alguns casos desaprender relações de dominação, incluindo, mas não se limitando a, o racismo, capicitismo, sexismo, heterossexismo, e assim por diante. Anarquistas, então, sustentam que nós neguemos todos os aspectos de poder sobre as pessoas — a sistematização da dominação a que nos referimos com muita frequência como hierarquia.

Então anarquistas, de fato, incorporam um ímpeto destrutivo — um ímpeto de pôr um fim à dominação, de esmagar o poder sobre as pessoas, de destruir os meios pelos quais o povo trabalhador é roubado e explorado. Isso expressa o aspecto negativo do anarquismo. As tentativas de maquiar isso, que muitas vezes têm o propósito de atingir as massas, acabam omitindo a rica história do anarquismo de combate aos sistemas de exploração e às relações de dominação. Mas é verdade que o anarquismo não é simplesmente um projeto negativo. Em adição ao que o anarquismo se opõe, nós também poderíamos observar o que anarquistas apresentam.

“É Também um Ímpeto Criativo”

Embora seja importante reconhecer que anarquistas desejam romper com a sociedade existente e que contêm dentro de si uma política de negação, é também importante reconhecer que historicamente anarquistas tiveram uma política de geração. Ou seja, dentro da destruição há também criação. Então o anarquismo é também um empenho criativo — isso tem sido demonstrado historicamente através das tentativas anarquistas de criar instituições alternativas ou, nas palavras da IWW[6], construir “o novo mundo a partir das cascas do velho.”

No lugar de um sistema de propriedade privada e roubo sistematizado, anarquistas propuseram a propriedade comum da sociedade ou, alternativamente defenderam, a abolição total da propriedade. Isso pode soar absurdo em uma sociedade que trata a propriedade como sacrossanta, mas anarquistas apresentam uma definição específica de propriedade: a reivindicação da posse daquelas coisas que não se ocupa e nem se utiliza. Anarquistas geralmente justapõem isso com bens pessoais ou aquelas coisas que usamos ou as casas em que vivemos (i.e., nenhuma pessoa anarquista quer tomar sua casa ou seu violão). É assim que os patrões e donos de terras exploram o povo trabalhador, afirmando possuir as coisas que eles não utilizam ou os lugares em que eles não vivem, e então extraindo aluguéis e valor das pessoas que realmente os utilizam. No lugar da propriedade privada, anarquistas apresentam visões de um sistema social em que nós produzimos pelas necessidades das pessoas em vez de pelos lucros de capitalistas.

De forma semelhante, em vez de um Estado que se coloca acima da sociedade, dirigindo-a, anarquistas geralmente propõem federações de assembleias locais, associações trabalhistas, conselhos comunitários, e demais corpos de coordenação similares compostos pelo povo. Nós iríamos coletivamente fazer decisões que afetam nossas vidas em vez de deixar que essas decisões sejam tomadas por nós pelos políticos ou que fiquem aos caprichos do mercado. As funções de segurança e tomada coletiva de decisões, então, iriam ser organizadas através de redes “de comunidades participatórias baseadas no auto-governo através da democracia direta e cara-a-cara em associações locais e assembleias comunitárias” e não através da representação, da polícia ou das prisões — em uma palavra, da burocracia.[7]

E no lugar de relações sociais hierárquicas, anarquistas propõem uma comunidade humana baseada em autonomia, solidariedade e apoio mútuo. Assim, a luta contra o Estado e o capitalismo precisa simultaneamente ser uma luta contra a supremacia branca, o heteropatriarcado e todas as formas de opressão e exploração. Anarquistas propõem uma sociedade baseada num ethos altamente igualitário porque nenhum ser humano deveria ter poder sobre outro. Então, anarquistas sustentam, é preciso ser entendido que “a guerra contra o capitalismo precisa ser ao mesmo tempo uma guerra contra todas as instituições de poder político,” porque “a exploração sempre esteve lado a lado com a opressão política e social.”[8] Substituindo a supremacia branca, um mundo construído para os chamados “corpos capacitados”, o patriarcado, a heteronormatividade e todas as relações de dominação, estariam novos conjuntos de relações sociais que não organizam grupos de forma hierárquica em termos de seus acessos ao poder econômico, político, e cultural.

O intuito dessa introdução bem breve foi de apenas oferecer uma visão ampla do anarquismo e nós sugeriríamos para qualquer pessoa interessada que confira os vários websites, livros, revistas, etc., anarquistas para entender melhor sobre ele por conta própria. Algumas pessoas anarquistas poderiam encontrar problemas com nossa abordagem feita acima — como dissemos, o anarquismo é um meio diverso. Nós queremos deixar isso bem claro, para que não nos ilustremos como quem fala pelo meio, sendo que estamos falando a partir de nossas próprias interpretações do mesmo.

Queer

“Queer” é da mesma forma um termo contestado. Historicamente, ele foi muitas vezes utilizado para descrever algo que parecia estranho, ou que não estava certo. Em tempos mais contemporâneos, ele foi/é usado como um xingo contra as pessoas que eram/são vistas como lésbicas e/ou gay — especificamente homens afeminados. No uso contemporâneo, ele é muitas vezes utilizado como um tipo de abreviação recuperada para várias identidades contidas na “sopa de letras” do LGBT — elas mesmas sendo grupos contestados de minorias sexuais com embates sobre quem “pertence” de forma legítima a essas categorias identitárias e sobre quem poderia ficar de fora.

Na verdade, parte do porquê “queer” passou a ser utilizado como uma abreviação para minorias sexuais e de gênero de todos os tipos foi por conta de alguns desses debates em torno de quem “pertencia”, em que contextos, e de como nós poderíamos pensar sobre nossa sexualidade e gênero em termos que não fossem baseados em identidades. Essa explosão na escrita sobre teoria, corpos, gênero, desejo, sexualidade, e muito mais é comumente referida como “teoria queer” e é acompanhada por uma “política queer” simultânea emergindo do chão, muitas vezes em momentos históricos similares. Organizações como Act Up e Queer Nation, eventos itinerantes como os festivais “Queeruption[9]”, e demais outros frequentemente refletiram mudanças radicais em como as pessoas que participavam pensaram sobre (os limites da) identidade.

Esses foram seguidos pela construção da uma teoria queer, a qual coloca as categorias identitárias sobre uma lente crítica. Parte da explosão da teoria queer encontra suas raízes no trabalho do intelectual francês Michel Foucault. Em seu famoso estudo da sexualidade, Foucault descobriu que “o homossexual”, enquanto uma identidade, poderia ser rastreado até o advento da ciência sexual em meados do século XIX.[10] Assim, o homossexual foi uma invenção. Isso não quis dizer que não havia atividade sexual de pessoas do mesmo sexo anteriormente aos meados do século XIX, mas sim que onde antes tínhamos uma atividade, ela foi transformada através de processos históricos complexos numa identidade — completa com fronteiras e, em alguns casos, rígidos in-groups e out-groups. Algo que uma pessoa faz (i.e., um ato) foi transformado em algo que uma pessoa é (uma identidade). De acordo com Foucault, o homossexual foi criado como uma espécie do humano.

Nossas categorias disponíveis dessa coisa que chamamos de “orientação sexual” tornaram-se baseadas nesse processo histórico de criação identitária, reduzindo complexos desejos e relações ao gênero de uma pessoa e ao gênero de quem ela deseja. Isso é importante porque a identidade é uma parte básica de como as pessoas passam a entender si mesmas e faz parte de como nós nos tornamos “constituídos como seres socialmente viáveis.”[11] Esses processos de socialmente construir identidades levaram à invisibilização completa de algumas pessoas — o que foi mais um motivo para o desenvolvimento de uma teoria e política queer.

Pense sobre isso: nos dizem que nós somos hetero, homo, ou bi — talvez 100% de atração pelo gênero oposto, 100% de atração pelo mesmo gênero, ou meio a meio. É isso que nós somos. Uma grande maioria sólida de nossa sociedade internalizou essa codificação e ainda construiu hierarquias opressivas a partir da mesma. Então entender a sexualidade e o gênero em termos de identidades rígidas, facilmente identificáveis, e fortemente policiadas efetivamente invisibiliza e rouba as pessoas que não se encaixam de forma sistematizada em nossas categorias identitárias de uma existência social viável — e isso não apenas em relação somente à sexualidade, mas também (e, é claro, de forma relacionada) ao gênero e ao sexo. Isso significou a exclusão de pessoas cujos desejos sexuais eram fluídos ou cujas práticas de gênero ou sexo não tornaram as discussões de sexualidade “coerentes” devido aos nossos espectros limitados de opções e auto-entendimentos. Isso apagou as pessoas que não experienciaram seus gêneros em termos de caixas construídas sistematicamente. Nós precisávamos de uma categoria muito mais fluida, elástica e ampla que fosse inclusiva e “queer” foi, em muitos casos, uma tentativa de criar esse espaço — uma anti-identidade, de certo modo. De forma relacionada, “queer” era uma palavra que poderia ser explorada.

Um Adjetivo e um Verbo

“Queer” serviu como um espaço para criticar a identidade e explorar teoria, corpos, poder, e desejo que não precisariam ser reduzidos a fáceis definições. As implicações de pensar sobre sexualidade, sexo, gênero, e um universo de outras ideias em relação com a teoria e política queer ainda estão sendo muito debatidas. “Queer” também teve um nível de elasticidade em seu uso — enquanto substantivo, ainda às vezes, mas também como um adjetivo e um verbo.

Além de um substantivo — mais um marcador de identidade — “queer” é frequentemente utilizado como um adjetivo. Em vez de uma descrição de quem uma pessoa é, nesse modo ele é tipicamente utilizado como uma posicionalidade. Isso é, queer pode ser visto como um relacionamento, como um antagonismo com a norma definido por um contexto.[12] Halperin, talvez, descreve isso da melhor forma quando ele escreve, “Queer é por definição o que quer que esteja em conflito com o normal, o legítimo, o dominante. Não há nada a que ele se refere particularmente. É uma identidade sem uma essência. ‘Queer’ então, demarca não uma positividade, mas uma posicionalidade frente a frente com o normativo — uma posicionalidade que não é restrita a lésbicas ou homens gays, mas está de fato disponível para qualquer pessoa que é ou se sente marginalizada por causa de suas práticas sexuais.”[13] As expectativas normativas que existem na sociedade criam divisões binárias entre comportamentos considerados “normais” e “anormais”. Quaisquer comportamentos (ou desejos, pensamentos, etc.) que caiam na categoria rotulada “normal” são dominantes, inteligíveis, visíveis, e em muitos casos, poderosos. Outros comportamentos vão cair na categoria do “anormal” e se tornar subordinados, ininteligíveis, invisibilizados e suprimidos, reprimidos e oprimidos.

O que é rotulado como “normal” vai afetar o que é rotulado como “anormal.” Se ocorrem mudanças em uma esfera, a outra esfera mudará também. Queer, então, é o que está em conflito com o normal e se alinha com a categoria do “anormal.” Uma vez que o normal pode mudar, o anormal também pode, e o queer. É por isso que o queer é chamado de uma posicionalidade — o que é considerado queer não é fixo, é contextual e relacionado ao que é chamado de normal. A razão do porquê o termo “queer”, nesse sentido, não ser restrito a “gay” ou “lésbica” é por causa de que muitas práticas sexuais são consideradas anormais — algumas que não são primariamente baseadas no gênero (por exemplo, jeitos específicos de se transar — como BDSM — ou jeitos específicos de moldar ou organizar relacionamentos sexuais — como a não-monogamia ou o trabalho sexual). A sexualidade normal, em nossa sociedade, não é apenas “hetero”, é uma forma específica de heterossexualidade — uma heterossexualidade que tem como objetivo um par felizmente casado em um relacionamento permanente, sujeito ao conjunto de normas que compõem o que é chamado de “heteronormatividade” — um tipo muito peculiar de heterossexualidade que reforça a dominância do conjunto de normas atribuído: coabitação, procriação, casamento, acoplamento monogâmico, etc. Nós poderíamos também, então, analisar as práticas sexuais e encarnações de gênero queers que reconhecem que “(h)ierarquias existem dentro da heteronormatvidade” — nos fornecendo um quadro para discutir não-monogamia, trabalho sexual, BDSM, e assim por diante tanto de dentro dos relacionamentos de mesmo sexo quanto noutros lugares.[14]

Isso não significa que todas essas práticas sexuais e de gênero são experienciadas da mesma forma ou oprimidas ao mesmo nível. Isso também é contextual e também relacional a outras identidades a que as pessoas possam ser designadas ou à posição de classe que possam habitar. Em vez disso, é estratégico que todas as pessoas marginalizadas e oprimidas pelo heteropatriarcado se organizem e lutem juntas. E isso significa que precisamos de uma lente para através dela examinar uma variedade de práticas sexuais e de gênero marginalizadas. Isso não significa que o heteropatriarcado trata todas as pessoas transgressoras da mesma maneira. Isso significa que não há escassez de emancipação e que se a emancipação, em última instância, for para ser significativa, ela precisa incluir todes nós.

Mais que isso, ao lado da natureza construída da sexualidade e do gênero, como o movimento intersex nos ensinou, nós também podemos colocar o sexo sobre essa lente crítica. O sexo é também colocado numa estrutura binária em nossa sociedade, o masculino e o feminino, que falha em reconhecer a amplitude da composição hormonal, sexual, e mesmo cromossômica que as pessoas podem encarnar e, sobretudo, também ignora a natureza coerciva das tentativas do Estado de definir para nós os nossos sexos ao nascermos. Isso possibilita uma política mais holística do sexo, sexualidade e gênero. Isso também nos dá um espaço teórico para estranhar[15] nossas suposições naturalizadas de outras identidades. Considere, por exemplo, as pessoas que existem nas margens das categorias disponíveis de raça e como isso pode fazer com que sua existência ou identidade sejam incoerentes ou, talvez, dinâmicas dependendo do contexto em que se encontram — “branca” em alguns contextos, talvez Latina em outros, e assim por diante. Qual a cara que a política poderia ter se nós começássemos a olhar para as identidades de maneiras que não as tratem como fixas, monolíticas e eternas?

Esse relacionamento antagônico com o normal também culminou numa ética anti-assimilacionista que muitas vezes separa a política queer da política mainstream “G(LBT)”.[16] Então a “Santíssima Trindade” da política gay e lésbica mainstream — o casamento de pessoas do mesmo sexo, Don’t Ask Don’t Tell[17], e a legislação contra crimes de ódio — é muitas vezes rejeitada e criticada de dentro da política queer.[18] Muito disso é refletido, também, nas tendências queer que vão de encontro à uma política radical que é crítica do Estado. Afinal, o Estado compulsoriamente nos designa categorias identitárias e os seus impositores espelham as formas com as quais os corpos e desejos são policiados para se encaixar sistematicamente nessas categorias. O Estado é também um impositor de fronteiras da mesma forma que a nossa sociedade exige fronteiras estritas e rígidas em volta da identidade. E as pessoas queer, especialmente, sofrem nas mãos do Estado nas prisões.[19] Na verdade, enquanto parte dessa ambivalência frente ao Estado seja um traço comum na política queer, há da mesma forma muitas vezes uma ética de emancipação da classe trabalhadora e um anticapitalismo dentro de comunidades queer, que se conectam bem com os valores anarquistas.

Essa posição que se refere ao normal é também incorporada no jeito em que “queer” é usado como verbo, especificamente no processo de estranhamento. Uma vez que a teoria e política queer vieram primariamente das investigações do sexo, sexualidade, e gênero, muitas vezes a palavra é utilizada para significar uma adição de uma análise necessária desses eixos para uma teoria ou conjunto de ideias já existente. Então nós poderíamos iniciar um processo de estranhar o anarquismo dessa maneira, adicionando uma análise necessária de sexo, sexualidade, e gênero onde ela se encontra datada ou simplesmente ausente. De forma parecida, queer pode ser usado como verbo para descrever o processo de tornar um conjunto de ideias estranho, de desestabilizar os entendimentos e suposições subjacentes dominantes. Então estranhar o anarquismo poderia também se referir a tornar o anarquismo estranho, criando novos entendimentos do anarquismo que o (re)definam utilizando insights da teoria e política queer.

[1] [Nota da tradutora] Ao longo do texto, a linguagem neutra será utilizada para ser coerente com as propostas do queer, substituindo indicadores e pronomes binários. A marcação de gênero só será efetuada quando o texto se refere a proprietários de terra e patrões, por exemplo, como forma de denunciar a posição cismasculina dos mesmos.

[2] Ver e.g. ARAGORN! (Org.). Occupy Everything: Anarchists in the Occupy Movement, 2009–2011. California: LBC Books, 2012.

[3] BERKMAN, Alexander. What is Communist Anarchism? New York: Dover Publications, 1972, xxv. Originalmente publicado em 1929.

[4] Ibid., xxvi.

[5] MALATESTA, Errico. Anarchist Propaganda. Disponível em: http://recollectionbooks.com/anow/ppl/rev/malatesta/lifeandideas.html Acesso: 4 de fevereiro de 2012.

[6] [Nota da tradutora] Industrial Workers of the World. Associação internacional de trabalhadores de cunho anarco-comunista, fundada na primeira metade do século XX. Para saber mais, confira: http://iww.org

[7] Anarchist FAQ. Disponível em: http://infoshop.org/page/AnarchistFAQSectionI5-#seci51 Acesso: 4 de fevereiro de 2012.

[8] ROCKER, Rudolf. Anarcho-Syndicalism: Theory and Practice. Oakland: AK Press, 2004, p. 11. Originalmente publicado em 1938.

[9] [Nota da tradutora] Festival de música queer punk. O primeiro ocorreu em 1998 em Londres, e o mais recente ocorreu em Budapeste em 2017. Não achei um site oficial, mas uma busca rápida no google leva a vídeos no youtube e várias fontes diferentes sobre o evento.

[10] Ver FOUCAULT, Michel. History of Sexuality, Volume 1: An Introduction. New York: Vintage Books, 1990. Originalmente publicado em 1978.

[11] BUTLER, Judith. Undoing Gender. New York: Routledge, 2004, p. 2.

[12] Ver especialmente WARNER, Michael. The Trouble with Normal: Sex, Politics and the Ethics of Queer Life. Cambridge: Harvard University Press, 1999.

[13] HALPERIN, David. Saint Foucault: Towards a Gay Hagiography. Oxford: Oxford University Press, 1995, p. 62.

[14] HECKERT, Jamie. Sexuality/Identity/Politics. In: PURKIS, Jonathan, BOWEN, James (Orgs.). Changing Anarchism: Anarchist Theory and Practice in a Global Age. Manchester: Manchester University Press, 2004, p. 11.

[15] [Nota da tradutora] Estranhar é o termo proposto por Guacira Lopes Louro em sua obra Um Corpo Estranho (2008), e funciona como uma tradução de nossa língua para o “queer” enquanto verbo.

[16] Ver especialmente SYCAMORE, Mattilda Bernstein (Org.). That’s Revolting!: Queer Strategies for Resisting Assimilation. New York: Soft Skull Press, 2004.

[17] [Nota da tradutora] “Não pergunte, não conte” era a posição oficial dos Estados Unidos, estabelecida na gestão de Bill Clinton em 1994, que censurava o pronunciamento público da homoafetividade (a saída de armário) de oficiais do Exército ou a entrada de gays assumidos no mesmo. Embora as leis tenham sido revogadas em 2011, tal postura ainda serve como modelo de censura não apenas no Exército, mas demais instituições e espaços públicos. Poderíamos conceber Don’t Ask, Don’t Tell como um comportamento heteronormativo de sigilo.

[18] Ver especialmente CONRAD, Ryan (Org.). Against Equality: Queer Critiques of Gay Marriage. Lewiston: Against Equality Press, 2010; e CONRAD, Ryan (Org.). Against Equality: Don’t Ask to Fight Their Wars. Lewiston: Against Equality Press, 2011.

[19] Ver, por exemplo, STANLEY, Eric. A., SMITH, Nat (Orgs.). Captive Genders: Trans Embodiment and the Prison Industrial Complex. Oakland: AK Press, 2011.

anarco-trans-feminista; traduções&autoteoria.

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